Como criar seu filho sem rótulos

Como criar seu filho sem rótulos

 

“Esse menino vive no mundo da lua.”
“Essa menina não come nada.”
“Ele têm o gênio do avô!”
“Na nossa família ninguém é muito bom em matemática.”

Quantas vezes, sem pensar, você já disse frases como essas, diretamente ao seu filho ou conversando com alguém a respeito dele? E quantas delas o influenciaram de fato, colando-se a ele como uma segunda pele, que por momentos fica difícil de tirar? “A gente não se percebe sozinho, não constrói a nossa identidade sozinho. É no relacionamento e no embate com o outro que cada um vai formando uma ideia de si mesmo”, diz a psicóloga Adriana Haasz de Moura Gaunszer, do Núcleo Criação, em São Paulo. Justamente por isso, é importante prestar muita atençãonas frases que falamos ou nos “carimbos” que – por vezes sem querer ou sem muita consciência -, vamos atribuindo ao outro.

“Quando a gente rotula uma criança, termina olhando para ela sob esse prisma. Isso, de alguma maneira, lhe rouba a possibilidade de ser diferente, de ser visto pelos outros de modo diferente”, diz Adriana. Qual o pai que nunca se surpreendeu ao buscar o seu filho na casa de um colega, em outro ambiente e com outra família, e perceber ou ouvir que ele teve um comportamento totalmente oposto ao que costuma mostrar em casa? Talvez isso ocorra justamente porque, nesse outro lugar, com pessoas que ainda não fizeram um julgamento a seu respeito, ele tenha a possibilidade de experimentar outro comportamento.

“Saber quem você é também traz um conforto. Pode ser angustiante estar na dúvida ou perceber-se em transformação. Por isso, muitas vezes, aceitamos de bom grado os rótulos que vão nos dando”, diz a terapeuta ocupacional Lara de Paula Eduardo. “Às vezes é mais fácil ser algo, mesmo que não muito agradável, do que não saber quem se é.” Nesse sentido, as crianças, ao ouvirem coisas sobre si mesmas, vão reforçando aqueles comportamentos e cristalizando assim modos de agir que nem sempre lhes fazem bem. “A criança quer agradar. Se sua mãe, sua família esperam determinado comportamento, ela tende a corresponder à expectativa”, diz a fonoaudióloga Luana Magalhães, que atende crianças e famílias junto com Adriana e Lara no Núcleo Criação, em São Paulo. Uma menina sempre vista como boazinha ou comportada, por exemplo, acaba não se permitindo expressar raiva ou se sente culpada quando esse sentimento aflora. Ou, ao contrário, uma criança que explode facilmente e os pais a rotulam como birrenta ou encrenqueira termina por sentir que é sempre inadequada. “Isso vai afetando a autoestima e a imagem de cada um”, diz Luana.

Para os pais, familiares ou professores muitas vezes também é mais fácil rotular e agir segundo esse rótulo do que manter-se atento, aberto, tentando perceber o tempo todo como a criança se manifesta e por que. Educar alguém é mesmo muito desafiante. Quantas vezes, quando sentimos que finalmente pegamos o jeito de lidar com alguma questão, o filho ou aluno, tal qual videogame, simplesmente muda de fase e nos obriga a recomeçar todo o processo? Mas já pensou o quanto seria tedioso decretar que tudo é imóvel, fixo, não passível de influência?

Em 1990, o psicólogo Claude Steele, da Universidade de Standford, fez uma série de experiências e comprovou que é possível afetar a performance de uma pessoa em um teste, seja de capacidade física ou seja de intelectual, apenas dando a ela uma indicação psicológica sutil sobre a identidade do grupo a que essa pessoa pertence. Em outras palavras: é possível abalar a confiança de alguém apenas reforçando um rótulo ou um preconceito estabelecido.

Uma de suas pesquisas foi aplicada a um grupo de idosos que realizaria um teste de memória. Metade deles, antes de fazer o teste, recebeu para ler um artigo que tratava sobre a perda gradual da memória com a idade. A outra metade, apenas fez o teste. O primeiro grupo, influenciado pelo artigo, teve um aproveitamento de 44%, enquanto o segundo grupo pontuou em 58% das respostas. O mesmo aconteceu com meninas que iriam realizar uma prova de matemática. Metade delas ouviu antes de entrar para fazer o teste que “meninas vão pior em matemática”. Isso de fato abalou a confiança delas a ponto de fazê-las pontuar menos que o grupo de controle. Steele chegou então à conclusão de que, quando alguém teme confirmar um rótulo ou um estereótipo sobre o grupo ou gênero a que pertence, a ansiedade gerada acaba afetando-o de fato, numa espécie de profecia auto-realizada.

A boa notícia é que essa armadilha, bem como o mal que trazem certos estereótipos e rótulos, também pode ser desarmada, na medida em que se diga e se mostre que tanto a inteligência quanto o caráter são maleáveis e que a nós todos, felizmente, é dada a possibilidade de mudar, avançar e melhorar.
Afinal de contas, ninguém é 100% bom ou ruim. E estabelecer rótulos, nos quais não cabem nuances, é condenar o outro a uma camisa de força sofrida de rasgar. O filósofo grego Heráclito resumiu com simplicidade a nossa complexa e mutante condição ao dizer que “ninguém se banha duas vezes no mesmo rio”. Porque o rio não será o mesmo, a pessoa não será a mesma. E essa constante transformação ocorre justamente porque o ambiente, os outros e nossas próprias percepções nos desafiam, nos influenciam, nos fazem mudar e caminhar. Ainda bem!

Texto Carolina Tarrío

Fonte: http://educarparacrescer.abril.com.br/comportamento/estigmas-808300.shtml

 

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